I.
Engolindo álcool
e vomitando amanhã,
sigo-me na caminhada
de meus passos
embaciados,
calados passos
no fastio
desta noite inchada.
Os astros
se entrelaçando
feito vinhas
espinhentas,
sobre eles
estes olhos dum cego
colecionando
vinténs em chapéus
estelares,
a boina solar
a pender para o lado,
ancorada no crânio
dos céus
feito adereço
grotesco.
Engolindo álcool
e vomitando amanhã,
um vapor ascensional
leva-me em santidade
a mais cigarros,
a salvação custa
apenas notas perdidas
no fosso
de uma carteira:
esta semana começa
ao entardecer,
vento varrendo
das páginas os dias impressos
e o sorriso publicitário
de criança
que centelha a explosão
amarga
dum café.
II.
Novas roupas
estendidas no varal
e nada mudado
se faz visto.
O orvalho dalguma
caneca
formando círculo
sobre o colchão.
Passas para lá,
corres pra
sentares sobre o
parapeito
da janela,
aglutinas as nuvens
de volta às suas composições
celestes:
rodopias atrás
do rabo entediado
desta juventude
que já se foi
sem se saber,
mas inda dá
voltas
sobre si mesma
até cair de tonta,
acordando sobre
meio-fio
de sabor familiar.
III.
Um urubu pousado
logo à frente,
sorrindo pelo
cenário de concreto
e tratores,
descansado sobre
meu indicador.
Antenas sintonizam
a negridão penada,
os homens mastigam
pães com manteiga.
Leve ranço
alcança a ponta
da língua.
Cachorros bocejam
a mornidão dos passantes,
sinais movidos a estimulantes
engolem em bocejo
a mornidão dos passantes,
chovisco desaba feito bocejo
pela mornidão dos passantes,
chovisco vindo duma mistura
de fumaça e nebulosidade corriqueira
que engasga o firmamento.
Ninguém se apercebe dos
assassinatos em série.
domingo, 18 de julho de 2010
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