sexta-feira, 24 de maio de 2013

mundar


pus amar ao mar
mudo mundo
mudar

vão em vão
pombas e correios sem asas
as baías e as danças
o fundo passo oceânico
a luta corpo a corpo
as penínsulas em pânico
vão em vão

por nada de luto
muda mundo
mundar

terça-feira, 29 de março de 2011

Infortúnio

E, sabido do cigarro
que fumavas ao desceres do ônibus,
fumava por mesmo porquê;
por que, então?
se nosso motivo
era nosso pesar
e engolíamos fumaça
como quem come da morte
e dávamos a partir
em separação.

E, sabido que tua casa
nos ficará tão penosa,
tua cama sepulcro
tão frio,
sabidos estamos
dos passos que se dão arrependidos,
a distância se condenando perpétua,
da dor entre as esquinas sabidos
que caminhos tão duros
fazem incerta a volta ao amar,
penando amargor do outro
que é tudo
neste outro perdido,
e tomam um corpo
dois fracassos:
o de não estares comigo
e o de estar apenas teu.

Sabido que a beleza
sem ti
perde a forma,
restando somente a forma
do nosso em vão
prevista em pungente latejo,
percorrendo a um eu
desabido de mim,
inda me ardo
puro dolente
por nos saber
luto do que somos,
futuramente fomos,
em peito vazio
pôr erro passado,
pra quê?


Meu bem,
não crê nesta
sorte tristonha;
nota a vontade
querida:
desatado de rumos,
nosso amor ainda respira.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Os Gatos Nunca Se Cansam Do Tédio


O mecanismo da poesia é a desesperança. Você sabe, no momento em que senta para escrever um poema, que não há um centavo entre você e ele. Na verdade, não há sequer um "você" entre ele e ele mesmo. Os poemas não têm estômago, não têm medo ou fome para retorcer as entranhas. Eles poderiam falar além dos tempos e nunca se cansar. E, você sabe, talvez o façam.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Mundano

Perante o mundo
não há condenados,
não há condenáveis,
grilhões não se cabendo em homem algum;

Perante o mundo
tuas ressalvas não te livrarão,
teu silêncio não te calará:
persiste a imponderável beleza do irredimível.

(Diminuo o volume da música e ouço a ausência da Lua e
[esqueço-me de todos os porquês
[que não têm o Amar e minha centelha dependurada no lábio não
[fulgura a primeira estrela da noite
e não lamento.)


Correndo frescor,
os pássaros da manhã voarão
junto aos homens,
e os homens do amanhã
junto a tudo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Solitude

Como lhe amo, ainda! faísca desta noite
e de todos os meus noturnais labirintos.

Ainda, amada, como lhe amo! rasgando-me contra o olvido,
entregue a memória a amar-lhe
rememorando mesmo que o esquecimento,
pois, hoje, seus olhos não me dispersam a fala sua que dizia,
os lábios, outrora rosados, são tingidos de azul,
e cantam-me dor esses lábios, quanta dor eles me cantam!

Como lhe amo, ainda! faísca desta noite
a elevar-me em queda o espírito.

Amá-la, querida, mostra-se amor uno, amá-la
resolve o mistério de todos amantes: ama-se uma vez,
e o penar tem na imperfeição do tempo o motivo.
Amá-la, querida, absolve o Amor, faz rendição
do incontável exército das palavras a mim,
amá-la, querida, como me dói amá-la! mesmo frente a qualquer [resolução.

Como lhe amo, ainda! faísca desta noite
que me apaga cada um dos versos e risos,
como lhe amo, ainda! corisco desmedido
a iluminar sem se saber luz,
a estremecer sem se notar maior que o frio da morte,
rompendo-se mesmo não sendo mais carne,
ainda lhe amo, mulher, inda que tenha o sexo de névoa,
os seios, as ancas, as mechas etéreas.

Suporto-lhe a existência e digo os outros poemas como ardilosa [falácia:
nasceram-me os sonhos agora e deles o poeta que sempre fui.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Poema Cético

Quando vier a morrer
me pergunto
se disparando notas estarei
de saxofone alto,
no altíssimo parapeito da abóbada celestial,
se cometa cruzará última noitada
cerrado aos olhos
e estes estarão opacos
em pálpebras,
se meu sexo estará coberto de mulher,
se a derme reluzirá gozo fresco,
e também das minhas unhas dos pés
podadas ou não
me pergunto,
terei nas mãos o extremo dos dedos polposos?
coisa na qual vejo graça desde que tateio coisas,
espécie de verrugas simpáticas, como se levasse semente
ante cada digital,
meus cílios inda rirão feito varal de dentes?
a face ainda embalsamará dilúvios
quando vier a morrer?
se pica se alçará mastro de desejo acima,
se o sangue continuará alcóolico
me pergunto,
das estações nunca sanadas nos sanatórios tombados dos amores,
desta pluralidade singularíssima
me pergunto,
se paixão ameixa rubra, solitude estelar, sóis cadentes e doirados,
amparo atmosférico tão azul e perpétuo,
se inda terei os poros como mistério,
Louie no lugar de Louis,
Trane em transes,
Parker não sendo Bird, seu inferno bêbedo da Dial irrigando a [carne dos lábios em graça do impossível,
a quinta de Mahler, terceira de Brahms,
rezarei maço e rosário meu a cada dia
quando vier a morrer?
me pergunto
se haverá Morte por fim, fim afinal,
ou se serei indiferente
como estes versos a mim o são,
tão desmundo quanto mundo.

Nasceu-me Febril O Entardecer

Nasceu-me febril
o entardecer,
aquele numa distância
de quantas vidas lamentosas,
inteiras minhas e todos os seus finares,
aquele cuja vermelhidão
sequer enxerguei,
nasceu-me febril
o entardecer
com nuvens vaporosas
de caldeira,
com favos eclodindo
sob crânios férricos
e compondo o migrar
das aves coloradoras da renovação
ao sol.

Nasceu-me febril
enxame de eus
batizados paixão,
e os algodoais sacros (que insistimos chamar anjos)
quedaram no vácuo torácico,
desertaram das pelejas elevadas (que teimamos chamar céu)
para a única das guerras
toda a arder por cá,
só a anatomia como campo,
memória não existindo que o caiba,
sangue dos amantes a injustiçarem este homem
desprovido de barragem,
todo passagem, córrego humano.

Poesia impiedosa,
cala-te, peço!
descrendo tudo a não nadar teu seio,
poesia sem volta,
fala-me incerto!
insanidade apaixonada,
vem-me explodir
substância senil da esfinge maior AMOR,
dúvida intransponível,
resposta indecifrável,
súbito parir do mundo em desvalor do futuro,
e desnecessária a morte,
inconcebível a morte,

dá-me escalpo dela tu,
enigmático leito onde não há sono!
dá-me a amada, crença trovoadora,
procissão desapercebida de letras,
processar alado dos passos,
dá-me a amada
em tormento dum despertar
constante,
dá-me ela
que carrega a herança
dos vivos
no meu ato cardíaco de ser.

O horizonte interno não se vê
e só nisso rememoro o quão vivo além do que posso sigo,
somente de excessos acompanhado,
no viver dado à sua transmutação na pele farta
desse nome feminino,
no viver que ladra de mim instantes e os sorve em coisa outra, [coriscos de milagre,
que me calça relevo incandescente nos pés,
ecoa tempo nos dias até que se perca
e me perca e insanos nos percamos em motivo,
eu, cidadão das torrentes ancestrais,
clamor dos próximos e longínquos, absoluta invocação das [linhagens,
ditando-as o agora inteiras tuas, mulher,
e me gorjeando apenas canto imbatível,
artéria da totalidade dos rumos.


Nas vistas finco lava louca e perene
do que jamais se dará
e, contudo, se faz,
nomeando-as contigo mesma no exorcismo dos anos,
nomeando-as AMOR,

sempiternoamor